por Cláudia Marques Santos

ANNA KARINA (1940-2019)

    Uma dança coreografada a três, improvisada num espaço sem mesas de um café parisiense, ela de chapéu na cabeça, saia plissada e camisolão por cima. Ou ela de vestido branco dentro de um carro descapotável azul a beijar Belmondo, que se encontra num carro vermelho estacionado ao lado. A primeira é a cena icônica de Bando À Parte, filmado a preto e branco, e a segunda, já a cores, é de Pedro, o Louco, ambos de Godard. Se as duas cenas fazem parte da iconografia imediatamente associada à musa da Nova Vaga, expoente da rapariga francesa que exala um misto de inocência e joie de vivre – com uma sensualidade distanciada da grande sex symbol da época Brigitte Bardot ou da beleza gélida de Catherine Deneuve –, é em filmes como o de Zurlini, Le Soldatesse, que podemos ver a atriz magnífica que Anna Karina era.

Le Soldatesse (1965) conta a história de mulheres gregas desesperadas de fome que durante a II Guerra Mundial aceitam prostituir-se nos bordéis improvisados para os soldados que se encontram a combater os partigianos da Albânia ocupada. Um tenente do exército italiano é encarregado de levar as mulheres de Atenas. Outra interpretação fabulosa no filme é a de Marie Laforêt, desaparecida um mês antes de Karina, em Novembro de 2019. No filme, Laforêt e o tenente apaixonam-se, mas o desfecho só pode ser miséria, tais as dores provocadas pela decisão de ter subido para aquela camioneta.

Karina é a rapariga do lado, terna, que se compadece da colega e lhe tenta apaziguar a irreversibilidade de ter embarcado naquela desventura. O grande plano do rosto de Karina consegue evidenciar a consciência de que, para conseguir sobreviver, terá de guardar a culpa numa gaveta e fechá-la a sete chaves. E, ao mesmo tempo, mostrar que consegue fazer isso mesmo através da compaixão, do descentramento de si própria. Karina deu a cara a muitos outros filmes que marcam a história do cinema: participou em sete filmes de Godard, com quem foi casada e dele disse que não era possível viver uma paixão por alguém que desaparecia durante vários dias; trabalhou para Visconti – com Mastroianni no papel de O Estrangeiro, adaptação da obra de Camus; trabalhou com Jacques Rivette, Agnès Varda, Fassbinder.

O que talvez não se saiba é que realizou ela própria um filme, Vivre Ensemble. Argumentista, realizadora, produtora e protagonista, o filme foi exibido no ano passado na Cinemateca Portuguesa, integrado no ciclo que o IndieLisboa dedicou à actriz.

À época o filme não granjeou grande críticas – e consegue perceber-se porquê, a história é contada aos soluços, não houve mestria nem de escrita nem de direcção nem de montagem –, mas isso não lhe retira a honestidade com que o fez. E é talvez essa a patine que melhor se cola à da beleza: uma miúda bela e compassiva, um rosto que nos fica gravado no imaginário depois de apagadas as luzes do grande ecrã. Uma jovem modelo dinamarquesa em quem Godard reparou. Uma miúda por quem nos apaixonamos para viver a leveza de um grande amor.

Biofilmografia
Anna Karina nasceu na Dinamarca em 1940, onde começou por cantar em pequenos bares e participar em pequenas publicidades, antes de se mudar para Paris com 17 anos. Conhece Catherine Harlé e Coco Chanel, para quem modelou.

Em 1959, o encontro com Jean-Luc Godard viria a lançar a sua carreira de atriz, ficando conhecida como a incontornável musa da Nova Vaga Francesa. Estreou-se no filme Le Petit Soldat em 1960 e colaborou com o realizador até 1966 com Made in USA. Colaborou ainda com Michel Deville, Agnès Varda, Chris Marker, Roger Vadim, Luchino Visconti, Rainer Werner Fassbinder, ou ainda Jacques Rivette com uma das interpretações consideradas mais marcantes em La Religieuse (1967).

Também colabora com Serge Gainsbourg na comédia musical Anna (1967).

Em 1973, lança-se na realização, produção e interpretação do filme Vivre Ensemble, lançado no Festival de Cannes. Pelo cinema, a carreira continua a leva-a a conhecer diversos realizadores e a colaborar de novo com Rivette em 1994 em Haut bas fragile. Em 2007 realiza, produz e atua um road-movie intitulado Victoria. Para além de cinema, Anna Karina também dirigiu e atuou em teatro, compôs e cantou música, e escreveu romances. Em 2017, Dennis Berry realiza um documentário sobre Karina, Anna Karina, souviens-toi.

Anna Karina faleceu a 14 de dezembro de 2019, deixando um legado inigual no cinema, marcado por uma artista de rosto singular, e ainda assim múltiplo, e de vivências e experiências pelos vários palcos e telas da arte e da vida.