por Anabela Moreira
OS SILÊNCIOS DE ISABEL RUTH 
Os silêncios fizeram nascer o cinema – que nunca foi mudo – porque os silêncios que percorrem o nosso imaginário cinematográfico foram sempre gritantes, foram sempre intensos e foram sempre misteriosos.
Os silêncios no cinema deixam-nos percorrer espaços, apreender gestos e viver emoções. E constroem pactos de cumplicidade. Cumplicidades que nos prendem à cadeira, que nos deixam a pensar e que nos empurram inevitavelmente para um mundo de ilusões… ou não! Nos silêncios do cinema, há sempre olhares que tudo orientam e que tudo dominam. Eu escolhi o olhar dos realizadores Paulo Rocha, João Botelho, Manoel de Oliveira e Sérgio Tréfaut para construir o meu olhar sobre Isabel Ruth.
Nas personagens que interpreta, no percurso narraRvo que as conduz e nas palavras que pronuncia para lhes dar corpo, eu escolhi os silêncios de Isabel Ruth.
Escolhi o silêncio de um corpo de bailarina, a leveza de um corpo difuso que dança metamorfoseada sobre o fogo e sobre a água quando ela é a Americana Louca da Confissão de Lúcio em Conversa Acabada, de João Botelho.
Escolhi o olhar intenso e marcante de Marta, na foto sobre o Piano, naquele olhar de Diva, estática, no contraste com o corpo diáfano e intenso mas, ao mesmo tempo, desafiador e exigente, que domina aquele piquenique, de Inquietude, de Manoel de Oliveira. E os olhos de Isabel Ruth tomam conta da câmara oliveiriana, em silêncio.
Escolhi o olhar duro de uma criada antipática que segura o guarda-chuva e protege um fotógrafo Ymido chamado para registar um percurso de morte em O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira. É apenas uma criada, de uniforme, com um olhar duro. Mas aquele olhar duro está sempre lá. É a criada que nos conduz a um universo narraRvo que, aparentemente, não faz parte do guião original. É talvez a única personagem que sabe o que se passa com Isaac. E diz-nos isso tudo… através dos silêncios. E diz-nos isso tudo através de um corpo de bailarina, através de uns pés que dançam quando corre para entregar o envelope a Isaac.
Escolhi a presença rápida mas significativa de uma vendedora de leite, personagem de um filme que se move perante o olhar de um realizador que também joga e conquista através dos silêncios (interpretado por John Malkovich). Aqui, Isabel Ruth é uma leiteira de Vermeer, olhada, num processo de discurso especular. Uma aparição rápida, um só olhar de câmara, um olhar aflito.. mas que entra na intensidade do olhar de Malkovich, em Vou para Casa, de Manoel de Oliveira.
Escolhi o corpo e os gestos de Albertina, em Mudar de Vida, de Paulo Rocha. Isabel Ruth é um corpo que corre, que se esconde, que observa, como que num bailado, gestos que são diáfanos mas que roubam a caixa das esmolas e que correm desenfreadamente através dos pinhais. Escolhi a força intensa de uma mulher misteriosa, exigente, com um olhar de ódio, de defesa e de uma independência selvagem. Albertina identifica-se nos diálogos e torna- se única através da rapidez dos gestos, da altivez do olhar, e do espírito de luta espelhado no modo como se esconde nos pinhais.
Escolhi a Ilda que Paulo Rocha escolheu para Os Verdes Anos. A Ilda determinada, lutadora, enérgica perante tudo e todos e, mais uma vez, a intensidade de um corpo de bailarina, de um corpo que corre como se dançasse, de um corpo que se impõe na imponência arquitetônica das avenidas novas. Porque ela é corpo e o silêncio daquilo que o realizador nos quis transmitir.

Escolhi os silêncios de uma criada que, numa atitude de servilismo e de humildade, projeta toda a intensidade dramática de um filme: a Celsa de O Princípio da Incerteza, de Manoel de Oliveira. Celsa observa intensamente o seu senhor, com um servilismo e uma ternura infinita. Está omnipresente em todos os jantares da quinta, escondida dos comensais mas no centro de todos os planos escolhidos por Oliveira. É o rosto silencioso dos maravilhosos e intensos travellings de comboio pelo Douro. Os silêncios de Celsa escondem a intensidade de um segredo que define todo o processo narrativo do filme. Celsa olha para as fotos, limpa o pó, ajoelha-se e olha para um retrato de Virgem Maria e, nos seus silêncios, tudo se pressente.
No caminho dos silêncios entranhados nas personagens que falam, escolhi uma personagem muda. De uma mudez avassaladora: a Ritinha, de Vale Abraão, de Manoel de Oliveira. O silêncio define a postura de Isabel Ruth. Ela é Ritinha, a criada muda, a fiel amiga de Ema. Ritinha é a observadora cúmplice e a única personagem que pressente o futuro conturbado dos seus senhores. O rosto dela é o rosto da dureza, da servidão, da disponibilidade total mas também é o rosto da arrogância de quem tem muito orgulho em defender os seus patrões. Ritinha protagoniza uma intrínseca ligação ao Douro e às mulheres do Douro. Quando se separa de Ema, após a atitude das irmãs de Carlos, abandona o Vale, com uma trouxa na cabeça, um corpo de bailarina, num bailado de afastamento, num corpo altivo que se afasta mas que se intensifica através de um plano longo, ao longo de toda uma alameda. Após a saída de Caires, longamente observado por ela, que tudo parece saber acerca dos seus propósitos, a lavadeira protagoniza a intensidade de uma relação umbilical com Ema: pressente rigorosamente o que vai acontecer dali a pouco tempo, após o intenso travelling de Ema através do pomar das laranjeiras. Ritinha é a gigante dominadora da narrativa. 
Escolhi o olhar de um rosto petrificado pela dor de um passado, na carruagem de um comboio de fantasmas e memórias, no silêncio de uma nudez absoluta na urgência de um duche simbólico, nos gestos de um corpo sulcado de depoimentos horrorosamente avassaladores em Treblinka, de Sérgio Tréfaut. Silêncios de um corpo que descansa, silêncios de mãos que massajam pernas e que percorrem uma janela de comboio desenhando manchas, envolvendo trevas e interpretando os horrores de Treblinka.
E escolhi o rosto vincado, decidido, inconformado e resistente, que tudo vê e que tudo pressente da matriarca de Raiva, de Sérgio Tréfaut. Mais uma vez, um corpo de bailarina envolta num xaile e num lenço negros. Um corpo ágil, uma voz que grita e que se impõe: uma mulher determinada que defende a família e que, subtilmente, incita à luta. Um rosto silencioso colado à terra, o silêncio da dor no contraste dos gritos contra os que lhe levam a filha, um corpo de Pietá inconformada que se mantém junto à casa… até ao fim.
Isabel Ruth entrou num pacto de silêncios. O guião é do realizador. As escolhas estéticas são do realizador.
A personagem cumpre exigências narrativas, mas os olhares, a postura do corpo, a duração e a intensidade dos silêncios são a escolha de Isabel Ruth.
Através dos silêncios, temos a ilusão de entrar no universo criativo de uma Mulher!
Obrigada pelos seus silêncios, Isabel Ruth!
SESSÃO DE HOMENAGEM À ATRIZ ISABEL RUTH
EXIBIÇÃO DO FILME O SAPO E A RAPARIGA DE INÊS OLIVEIRA NO CINEMA TRINDADE, DIA 9 DE OUTUBRO ÀS 21H30, COM PRESENÇA DA ATRIZ E CONVERSA MODERADA POR ANABELA MOREIRA
O SAPO E A RAPARIGA
- Portugal | 18’00’’ | 2018
- Realizadora: Inês Oliveira
- Elenco: Isabel Ruth, Fernanda Fernandes, Francisco Nascimento, Rita Cabaço
- Produtora: C.R.I.M.
Sinopse
A lavandaria está fechada e uma jovem tem de aprender como se lava a roupa à mão com a sábia Deolinda, que lhe conta uma estranha história de encantar.
Biofilmografia
Isabel Ruth nasceu em Tomar em 1940. Apaixonada pela dança, mudou-se para Lisboa aos 12 anos para estudar ballet, antes de partir para Londres em 1958 e frequentar a Royal Ballet School. De regresso a Portugal, participou em vários bailados, entre os quais Ritmo Violento (1961) coreografado por Norman Dickson. Estreou-se como atriz em pequenas produções televisivas a partir de 1957, mas foi no cinema que sedimentou a sua carreira, destacando-se com Os Verdes Anos de Paulo Rocha, em 1963, sendo o rosto mais emblemático do Novo Cinema Português.
Colaborou de forma regular com Paulo Rocha, incluindo filmes como Mudar de Vida (1966), O Rio de Ouro (1998), A Raiz do Coração (2000) e Vanitas (2004). Trabalhou regularmente com Manoel de Oliveira, com destaque para Vale Abraão (1993) e Inquietude (1998), entre outras colaborações. No cinema português, colaborou ainda com realizadores como Pedro Costa, João Botelho, Fernando Lopes, Manuel Mozos, Sérgio Tréfaut, Margarida Gil, Teresa Villaverde, Cláudia Tomaz, Raquel Freire, Cláudia Varejão, Inês Oliveira, entre muitos outros.
No panorama internacional, trabalhou com Paolo Pasolini em Edipo Rei (1967), Leonello Massobrio em Il Rapporto (1969) e Roberto Faenza em H2S (1969). Para além da sua carreira como atriz em cinema, teatro e televisão, Isabel Ruth também escreve e compõe música, tendo publicado uma autobiografia poética em 2006, intitulada Fotopoesia.
A 27 de março de 2018, Isabel Ruth foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique.
