Margarida Cordeiro

 

por Ilda Teresa de Castro

Aprendizado para quem quiser Amar

Conheci a Margarida Cordeiro na época em que preparava o filme Rosa de Areia, o terceiro e último que co-realizou com António Reis, de quem eu era aluna na Escola Superior de Teatro e Cinema desde 1986. Assisti à rodagem de algumas cenas no Museu Nacional de História Natural e Jardim Botânico. Na época, eram poucas as mulheres realizadoras, na Europa, no mundo e em Portugal.

Ver uma mulher a realizar e orientar uma equipa predominantemente masculina, era algo muito raro que prendia a atenção, ficava na memória e levantava questões e comentários, não se esquecia.

Alguns anos mais tarde, encontrámo-nos nas imediações do Príncipe Real, em conversas e caminhadas urbanas pontuadas pelas suas viagens entre Lisboa e Cacilhas, onde tinha então um atelier de pintura.

Lembro-me que me ofereceu um unguento que ainda hoje exala um forte cheiro a meloa quando abro a tampa do pequeno frasco. Em 1998, quando programei o Dia do Filme Português, integrado no 6o Festival do Filme de Arte de Trencianske Teplice-Trencín, na Eslováquia, partimos para essa pequena vila termal, de onde Margarida regressou mais cedo para participar no primeiro referendo pela legalização do aborto.

Pouco tempo depois, a Margarida rumou ao nordeste transmontano, local onde a visitei em 2000 para a recolha e compilação do registo oral Cineastas Portuguesas 1874-1956, conversas com…[1] Aí, tive o privilégio de com ela percorrer lugares, escalar rochas para perscrutar a paisagem nordestina ou contemplar as verdes margens do Alto Douro.

Margarida recolhia cães abandonados ou maltratados pelas populações locais – flagelo malfadado que se reproduz como as metástases de um carcinoma, por todo o país –, e cuidava-os com atenção e carinho, dedicando-lhes boa parte do seu tempo diário. Não nos voltámos a ver desde então, mas a sua obra ficou presente na minha vida que paulatinamente derivou mais e mais para a Natureza e inter-relações humano/mais-do-que-humano, numa convergência comum de afectos pelo vivo e não-vivo.     

Há uma ideia sua que me tem acompanhado nas minhas pesquisas artístico-científicas ecocritícas em que diz o seguinte: “Para nós, no filme, a Natureza funciona como uma casa exterior. Há uma casa, com os seus espaços e os seus sons, mas os sons exteriores dão-nos a ideia de uma casa que é fechada sobre si própria e aberta sobre a Natureza, por fora também é casa, também está habitada.” [2], afirmando essa contaminação de escalas, seres e domínios constituintes do universo em que o sujeito humano se inscreve.

 

Os seus filmes, imergem no natural entre-mundos, ensaiam uma dialéctica entre microcosmos e macrocosmos, entre o céu, a Terra e seus movimentos e mistérios. As outras espécies e matérias inorgânicas, são apresentadas na grandeza do universo, merecedoras de respeito a par do humano. As árvores, as pedras, os caminhos, os elementos, são personagens como as humanas. Os mistérios da vida e os mistérios da Natureza, fundem-se numa cousa outra, para a qual, por vezes, não há palavras.

Existe nestas obras uma preocupação com a perda irreversível de valores culturais, humanos e mais- do-que-humanos.

Traçam com particular distinção mnemónicas e recriam epistemologias e gestos primordiais em desvanecimento. Inspiram-se em ecos antigos transmitidos nas tradições, lendas e simbologias, e nas relações de individuação que o sujeito encontrou e desenvolveu em estádios de proximidade e interação com morfologias cada vez mais distantes para a maior parte de nós.

Ancoragens de uma sabedoria antiga fundada em sucessivas escolas que entre si a foram transmitindo, e na autenticidade de signos em risco de extinção – arrastando consigo irremediavelmente as verdades profundas que encerram, bem como a sua história e memória –, atentam para o perigo de erosão desse conhecimento, e para o empobrecimento que essa perda significa para toda a humanidade.

É assim que alertam para o facto de não estarmos a salvaguardar conhecimentos ancestrais essenciais, reflexão que não poderia ser mais actual nestes tempos antropocénicos e dromológicos que vivemos.

O modelo — que tantas configurações abriga (e que urge reformular) —, androcentrado, especista, antropocentrado, homogeneizante e massificante, consumista e alienante, que caracteriza as sociedades “desenvolvidas” capitalistas, hiper-industrializadas e hiper-tecnológicas; esse modelo, dizia, não poderia ser mais antagônico ao legado da obra de Margarida Cordeiro. Escutar estes filmes e seguir as (entre)linhas com que (entre)tecem a diegética formal que os enforma, é um aprendizado, para quem os quiser amar.

[1] O segundo livro de uma trilogia dedicada ao Cinema Português: Cineastas Portuguesas 1874-1956 [conversas com Noémia Delgado, Teresa Olga, Margarida Cordeiro, Monique Rutler, Paola Porru, Solveig Nordlund, Renée Gagnon, Manuela Serra, Margarida Gil, Rosa Cou8nho Cabral, Cris8na Hauser, Rita Azevedo Gomes], Câmara Municipal de Lisboa – Cultura, Lisboa, 2001. Dela fazem parte ainda o primeiro, Curtas Metragens Portuguesas [conversas com Edgar Pêra, Fá8ma Ribeiro, Ivo M. Ferreira, Jeanne Waltz, João Pedro Rodrigues, José Gouveia, Júlio Alves, Pedro Caldas, Rita Nunes, Ruy Otero, Sandro Aguilar, Wilson Siqueira], Câmara Municipal de Lisboa – Cultura, Lisboa, 1999; e o terceiro, Animação Portuguesa [conversas com Mário Neves, Servais Tiago, Artur Correia, Ricardo Neto, António Gaio, Hernâni Barbosa, Vasco Granja, Abi Feijó, Regina Pessoa, Paulo Cambraia, Mário Jorge, António Costa Valente, Nuno Amorim, Humberto Santana, José Miguel Ribeiro, Zepe], Câmara Municipal de Lisboa – Cultura, Lisboa, 2004.

[2] Em entrevista por Pedro Borges, JL, 14 Maio 1985.

SESSÃO DE HOMENAGEM À REALIZADORA MARGARIDA CORDEIRO

EXIBIÇÃO DO FILME ANA NO CINEMA TRINDADE, DIA 10 DE OUTUBRO ÀS 16H15

ANA

Sinopse

Numa longínqua região montanhosa de Portugal, vive uma família cujos contactos com o mundo exterior são raros. Os seus membros são quase vestígios de uma outra era. O seu isolamento vai ser perturbado pela chegada de uma equipa de etnólogos, com quem vão tentar manter-se numa relação distante, mesmo hostil.

Biofilmografia

Médica psiquiatra e realizadora de cinema, Margarida Cordeiro nasce em 1938 em terras de Trás-os-Montes, onde mais tarde viria a levar António Reis e desenvolver em conjunto obras cinematográficas centrais da vanguarda do Novo Cinema Português. Com uma linguagem cinematográfica inovadora e poética, por meio de docu-ficções etnográficas, Cordeiro e Reis exploram na sua obra temas ligados à memória e à mitologia popular do norte de Portugal. Em 1973, Cordeiro é assistente de realização no filme Jaime, concebido a partir de desenhos de Jaime Fernandes, internado e falecido no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, encontrados pela própria Cordeiro. Em 1976 começa o percurso de co-realização com Reis, com a longa-metragem Trás-os-Montes, um filme “revelação de uma nova linguagem cinematográfica” segundo Jean Rouch. Seguem-se os filmes Ana (1982) e Rosa de Areia (1989). O projeto seguinte seria a adaptaçáo da obra-prima do mexicano Juan Rulfo, Pedro Páramo, no entanto Reis falece em 1991. Margarida Cordeiro concorre ainda durante dez anos à produção no Instituto de Cinema Português para o projeto, realizando várias viagens ao México em preparação e já com coproduções internacionais. No entanto, o projeto nunca chega a ser aprovado. Cordeiro sofre negligências e omissões contínuas na maior parte da crítica e análise que rodeia esta obra incontornável do cinema português. Por isso, e muito mais, Cordeiro afasta-se do mundo do cinema e reclusa-se até à data por terras transmontanas. A recente recuperação da obra cinematográfica de Reis-Cordeiro pelo ANIM e a Cinemateca Portuguesa em 2016, e a retrospectiva organizada pelo festival Porto/Post/Doc no Porto em 2018, suscitaram o questionamento sobre o tratamento de Cordeiro, ao longo das últimas décadas, pelos diferentes agentes do cinema português.