HOMENAGEM A MONIQUE RUTLER

Solo de Violino 

de Ana Catarina Pereira

A década de 90 seria um período marcante na História do Cinema Português. Uma democracia recentemente conquistada (1974), a entrada do País na União Europeia (1986) e a tentativa de promulgação de medidas que fomentassem a igualdade de oportunidades geravam debate e questionamento. Alguns dos mais densos filmes então estreados — de Teresa Villaverde, Pedro Costa, Margarida Gil, João Canijo, Solveig Nordlund ou João César Monteiro — revelam, como mencionado em capítulos anteriores, distanciações fraturantes, ao mesmo tempo que denunciam os inúmeros problemas que asfixiam determinados segmentos da sociedade. As imagens de crianças e adolescentes que crescem e são educadas num País de subúrbios marginalizados, a instabilidade face ao novo e as injustiças perenes seriam motivos dominantes na cinematografia daqueles anos. Nesse contexto, Monique Rutler decide realizar um filme de época. Olhando o passado, questionou o presente e perspetivou um futuro que poderia retroceder no âmbito dos direitos humanos, se não fosse prestada a devida atenção aos poderes instituídos, consentindo-se no tratamento discriminatório de mulheres e classes trabalhadoras. Depois de intensas pesquisas, a cineasta franco-portuguesa concluiu uma obra/denúncia acerca da história de Adelaide Coelho da Cunha — filha do fundador do jornal Diário de Notícias e primeira mulher de um dos seus diretores —, internada e sujeita a tratamentos psiquiátricos indevidos por ter decidido viver um amor adúltero. Em Solo de violino, como na realidade, Adelaide é duas vezes internada no hospital Conde de Ferreira, no Porto, em Novembro de 1918 e em Março de 1919. Em Agosto do último ano é autorizada a sair. A evolução destes acontecimentos é sinteticamente mostrada no filme, em sequências de imagens nas quais dominam diferentes tons de azul, associados a estados introspetivos e/ou depressivos. Quem assiste, tem acesso a um quarto de dimensões reduzidas, a uma cama de ferro e à mesa onde Adelaide escreve no seu diário. Do diálogo entre os médicos vão sobressaindo informações relativas a medicação, ao mesmo tempo que o/a espectador/a se confronta com a automatização das enfermeiras e funcionárias do hospital, cumpridoras de obrigações que jamais questionam. O contacto de Adelaide com outras pacientes reforça, por sua vez, a noção de estranheza do lugar e a possibilidade de fuga que consegue empreender antes de ser novamente capturada. A questão ultrapassa a caracterização dessas personagens com comportamentos disfuncionais, centrando-se no modo como as imagens instauram movimentos de descontinuidade e desestabilização. É na plasticidade e na sonoridade de Solo de violino, na relação estabelecida entre os corpos e os espaços, entre o tempo vivido (cerca de dez meses) e o tempo encenado (cerca de 60 minutos de filme), que as tensões políticas se concretizam. Nesse aspeto, a opção de Monique Rutler por realizar uma ficção e, simultaneamente, questionar a dúbia fronteira entre mundo vivido e mundo encenado é também política. A relação entre campo e fora-de-campo representa a tensão entre o corpo de Adelaide e o corpo das instituições. Não se trata de um conflito simbólico, mas de um embate imanente, constituído a cada cena e exacerbado a cada corte. Pela alarmante facilidade com que a doença psiquiátrica é diagnosticada, Solo de violino lançou o debate acerca de diversas questões bioéticas e deontológicas, desafiando quem assiste a colocar-se perante o indesmentível e o perverso das instituições de poder. Tratando-se de uma reconstituição do período correspondente ao início da Primeira República, ilustra também os preconceitos de uma sociedade patriarcal e as incapacidades de aceitação da recente possibilidade do divórcio, sendo o recurso exibido como uma “faca de dois gumes”: a partir de 1910, a mulher passa a ter a possibilidade legal de pôr fim a uma união matrimonial. Todavia, o facto de raramente trabalhar acaba por a despojar de todos os bens, como acontece com Adelaide, filha do fundador do jornal que o marido dirigia. No filme, a recriação desse contexto histórico cerrado e compacto é ainda consubstanciada no momento em que o fi lho e a irmã de Adelaide admitem a sua infidelidade, rejeitando imediatamente a hipótese de uma atitude consciente, lúcida e desejada pela própria. Solo de violino reflete, desse modo, uma realidade na qual a independência da mulher não é reconhecida, esperando-se da mãe e esposa um eterno exemplo de virtude, obediência e dedicação à família. A descoberta do marido traído, por sua vez, gera uma pressão social que o compele a agir — necessidade que se opõe à apatia e ao conformismo de Adelaide perante as suas traições iniciais, reproduzindo toda uma série de estereótipos sobre a virilidade masculina e a submissão feminina. A sociedade portuguesa, por sua vez, lida com a insubmissão aceitando o rótulo imposto pelos conceituados profissionais de saúde: Adelaide Coelho da Cunha só poderia estar (ou ser) “louca”. Pela reprodução da repugnância ante as diferenças de idades e de estatuto dos dois amantes, Monique Rutler mimetiza a ideia instituída segundo a qual a sexualidade é vinculada à juventude e circunscrita a elementos posicionados no mesmo nível social. Dentro da temática das relações de género que o filme aborda, o facto de a irmã de Adelaide apoiar o cunhado e concordar com o internamento revela, ainda, a histórica falta de apoio e de solidariedade entre as mulheres, anteriormente exposta no regaço de uma visão beauvoiriana. Em entrevista concedida pessoalmente, Monique Rutler assume que a evidenciação de algumas cenas foi propositada: “Eu não sei porquê, mas nós (mulheres) sempre fomos assim. Essa situação, tal como todas as outras, aconteceu mesmo dessa forma e eu fiz questão de a retratar no filme.” De uma perspetiva feminista, é igualmente notória a desconstrução do arquétipo “mulher adúltera”, promíscua e desequilibrada. Ao contrário do que a vida faustosa de Adelaide Coelho da Cunha poderia antecipar, a sua personagem não é apresentada como uma figura inspirada em Emma Bovary ou Anna Karenina, que cede à tentação da luxúria, sendo vencida pela melancolia e pela insustentável leveza das horas que passam. Pelo olhar de Monique Rutler, Adelaide é uma mulher apaixonada que, ao renunciar à fortuna, minimiza possíveis infrações morais do adultério. Nas mesmas circunstâncias, Adelaide poderia ter optado por uma situação de consequências menos trágicas, mantendo a relação extraconjugal, o casamento de aparências e a intensa sociabilidade exigida pelo seu estatuto. Ao assumir o que sente, a personagem revela uma coragem e determinação inadequadas ao seu tempo, contrariando a dualidade ativo/masculino e passivo/feminino. Não se recorrendo à sua exposição como objeto erótico, a figura representa a ação de tal forma que o seu poder coincide com o olhar de quem assiste. Por todos esses motivos, Solo de violino pode ser visto como um filme intrinsecamente político, que aponta diversas críticas: à tradição burguesa, que consente o adultério de Alfredo da Cunha, mas se escandaliza com a fuga de Adelaide; aos padrões morais que restringem o amor a determinados cânones; às expectativas depositadas na mulher, esposa, mãe e fi gura-referência nos campos sociais e culturais; ao curriculum e à integridade de três médicos reconhecidos pelos avanços científicos preconizados.

Ana Catarina Pereira In A Mulher-Cineasta: Da arte pela arte a uma estética da diferenciação (LabCom Books, 2016)