"LAVORES"
Dias: 22 - 25 de Abril
Horário: 19h15
Local: Batalha Centro de Cinema
“Não há nada a dizer”, dizia a minha mãe, e é nesse “nada” que estou a trabalhar.
O que é trabalho? E o trabalho das mulheres?
Lavores.
O trabalho das mulheres situa-se aquém do trabalho e, em larga medida, o cinema das mulheres ainda se cria aquém do cinema. Não importa. Ocupamos as entrelinhas, as frinchas, as fronteiras entre os géneros que o género dominante estabeleceu, trabalhamos outras linguagens, coisas que só elas sabem. Convocamos Solveig Nordlund, Isabel de Castro, Claire Simon, Miou Miou, Sara Gómez, Suzanne Zedet, María Galindo, Susana Nobre, Joana Ferreira, Marta Lança, Jodie Mack, Regina Guimarães, Diana Regal, Filipa César, Diana McCarthy, Joana Barrios, Íris Silva e tantas mais. Os seus lavores de cinema brotam nas brechas entre teatro e cinema, propaganda e censura, coletivo e sujeito político, as classes e as margens, o social e o pessoal, o documentário e a ficção, a memória e o arquivo, a máquina e a mão.
Com elas tecemos os fios das conversas que fomos tendo, no quente da tua cozinha, na meia-luz do whatsapp, no corredor entre dois afazeres. Os lavores são todos os trabalhos que não cabem no trabalho, das ervilhas ao sexo, do parto à roupa suja, a história da nossa domesticação e das nossas revoltas.
Começa aquém do trabalho, aquém da política, e até aquém da casa. No princípio há os gestos que tu e eu repetimos, os que só elas sabem. debulhar, descascar, cortar, ajeitar, remendar, arrumar... No início de cada sessão um pequeno gesto. Uma avó filmada pela neta.
Descasca cenouras. E repete na sessão seguinte. Porque isso é o trabalho. Repetido todos os dias. Não conseguindo definir o trabalho, podemos descascá-lo, despí-lo frente à câmara, e talvez nos aproximemos ao repetir o pequeno gesto, que repetido nunca se repete.
A casa é uma fábrica sem sirene. Trabalho de sombra, de casa, de luta, de parto, de mãos...
Sombra. O trabalho depois do trabalho. Ao lusco-fusco, Música para si detalha a rotina doméstica, a solitária dissolução de si mesma no silêncio em que as vozes da rádio colapsam mundo interior com exterior.
Casa. Os minúsculos episódios das Scènes de Ménage assumem-se como ensaio ritual dos pequenos conflitos do quotidiano, micro-negociações da economia afetiva em gestos calculados. Já Mi aporte de Sara Gómez, encomendado para demonstrar a participação das mulheres na Revolução, revela a persistência da organização patriarcal do trabalho. As vozes das mulheres rompem o silêncio confinado da esfera privada e expõem o desfasamento entre o discurso e a estrutura invisível que o desmente.
Luta. Se o trabalho doméstico é frequentemente isolado, o Trabalho de Luta reinscreve-o no coletivo. Em Classe de lutte procuramos juntas esse momento raro da tomada de palavra política, o surgimento de Suzanne enquanto sujeito, num ato de coletivização do gesto de filmar. Revolución Puta recusa liminarmente o processo de legitimação progressiva e a paz social podre através da ação direta, confrontando os limites das categorias do trabalho, da dignidade, da exploração e da representação.
Parto. Em Año Uno, Sara Gómez cruza a sua experiência pessoal da maternidade com um retrato social desse tempo alargado da reprodução na sociedade cubana. Apresenta as creches recém-criadas como solução coletiva, mas também como dispositivo de gestão. Estados da matéria e Tempo Comum ensaiam, em durações e gestos diversos, uma mesma procura. Neles se trabalha os cuidados da parentalidade e a reconfiguração do tempo, questionando a distinção entre trabalho e “não-trabalho”.
Mãos. O arquivo (infindável) dos gestos do téxtil, entre variação e reprodução, dá o mote para uma sessão (finalmente) dedicada ao trabalho dos lavores tradicionalmente assumidos pelas mulheres. Os Blanket Statement de Jodie Mack trabalham o esgotamento das formas na repetição, em jogos de colagem entre a indústria e o trabalho manual. Em Moiras um grupo de mulheres alentejanas reapropria a terra, a lã que o mercado desprezou, e os cantos que são a memória viva de lutas travadas e, hoje mais do que nunca, por travar. Em Crioulo quântico o pano surge como tecnologia de inscrição e memória, nele se tecem os fios que ligam práticas ditas tradicionais e estruturas contemporâneas de informação, instrumento e expressão dos processos históricos de dominação e resistência.
| PROGRAMA |
Trabalho de Sombra
Cenoura em Partes de Íris Silva | 2025 | Portugal | 2’
Música para si de Solveig Nordlund | 1978 | Portugal | 55’’57’
Trabalho de Casa
Cenoura em Partes de Íris Silva | Portugal | 2025 | 2’
Scènes de Ménage de Claire Simon | França | 1991 | 50’ (10 x 5’)
Mi aporte de Sara Gómez | Cuba | 1969/72 | 33’
Trabalho da Luta
Classe de Lutte de Groupe Medvedkine de Besançon | França | 1969 | 37’
Revolución Puta de Maria Galindo | Bolívia | 1993 | 52’
Trabalho de Parto
Año Uno de Sara Gómez | Cuba | 1972 | 10’
Estados da matéria de Susana Nobre | Portugal | 2006 | 15’
Tempo Comum de Susana Nobre | Portugal | 2018 | 64’
Trabalho de Mãos
Blanket Statement #1: Home is Where the Heart is de Jodie Mack | EUA | 2012 | 3’
Blanket Statement #2: All or Nothing de Jodie Mack | EUA | 2013 | 4’
Moiras de Regina Guimarães & Saguenail | Portugal | 2008 | 30’
Quantum Creole de Filipa César | Portugal, Guiné-Bissau, Alemanha, França | 2020 | 40’

Amarante Abramovici | Ela/Dela
Amarante Abramovici:
Amarante Abramovici formou-se em realização na Fémis, em Paris, realizou Circa Me (2002), GAIA (2004), Mouvements para partos imaginados (2002), Dezembro (2008), semailles | setembro (2016), junho (2024) e filmes em colaboração como A Cultura do Capital (2003), Travelling 70’–76’ (2007), A Colher (2010), Rasura (2019) e residência (2025). Foi programadora na CasaViva, na Confederação, no Panorama - Mostra do documentário português, no Doclisboa e no seminário Doc’s Kingdom. Colabora regularmente em projetos educativos com enfoque no cinema e leciona Cinema e Vídeo na ESAP. Além de participar em projetos expositivos, recolhe, digitaliza e estuda espólios de cineastas amadores em 8mm.

Beatriz Diniz | Ela/Dela
Beatriz Diniz:
Beatriz Diniz é licenciada em Cinema e Audiovisual e atual mestranda em Realização. Desenvolve trabalho entre a prática cinematográfica, programação e a investigação. Tem colaborado com cineclubes, festivais e contextos culturais, integrando a equipa de pré-seleção do Porto Femme International Film Festival. Atualmente, encontra-se a desenvolver o projeto TOSHiiB4, na área da criação visual, em colaboração com Luísa Guerra, projeto vencedor da 8.ª edição da Bolsa Amélia Rey Colaço.
