por Luísa Pinto

Fernanda Lapa (1943 – 2020)

Fernanda Lapa, uma Mulher Maior que nos impressionou ao longo da sua vida pelo seu inegável exemplo de coragem, pela luta por direitos iguais entre homens e mulheres, pelo grande amor ao teatro, pela luta por melhores condições de trabalho no campo das artes, pela valorização da cultura, pela criatividade, pela sua inteligência, pela sua imaginação, encenando o que poucos ousariam sobre o que nos seduz e agarra.

Fernanda Lapa foi atriz, encenadora, professora de teatro, mulher de lutas artísticas, políticas e sociais, revolucionária, antifascista, determinada. Nunca calou a voz. Íntegra! Dedicou a sua vida ao teatro, a sua grande paixão. Foi bolseira da secretaria de Estado da Cultura, na Polónia, estagiou no Teatro Laboratório de Grotowski, no Teatro Contemporâneo de Wroclaw e no Teatro Stary de Cracóvia.

Fundou a Casa da Comédia, depois a Escola de Mulheres-Oficina de Teatro, estrutura a que dedicou os últimos 25 anos da sua vida. Fez cinema, televisão, foi premiada com o Sete de Ouro para Melhor Encenação com o espetáculo Medeia é Bom Rapaz e o Globo de Ouro de Melhor Espetáculo para A Mais Velha Profissão, foi ainda distinguida com a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura e coordenou as comemorações do Centenário do Dramaturgo Bernardo Santareno.

Conheci a Fernanda Lapa em 1995, no ano em que nasceu a Escola de Mulheres, a empatia foi imediata e, desde aí, cresceu uma linda e forte amizade que durou até à sua morte. Essa empatia anunciou, desde logo, uma vontade recíproca na celebração de possíveis parcerias. Realizámos coproduções como Maria Callas – O Mito Absoluto para a Expo-98 e, no ano seguinte, levámos à cena o espetáculo Coco Chanel, ambas com encenação da Fernanda. Tive a enorme honra de contar com a Fernanda Lapa enquanto atriz em espetáculos que encenei: Mil Olhos de Vidro, Chavela e O Filho Pródigo (que reunia no elenco reclusos e reclusas dos dois estabelecimentos prisionais de Santa Cruz do Bispo), e por último, em 2019, na longa-metragem O Filho Pródigo-Filme Concerto, com realização minha e do Carlos Coelho Costa e, com o mesmo elenco; reclusos e reclusas que se juntaram na Tela a atores profissionais.

Recordo o dia em que convidei a Fernanda para estes dois projetos com objetivos artísticos/ sociais: aceitou sem pestanejar com toda a sua generosidade, profissionalismo, cria?vidade, sensibilidade e afe?vidade, ao lado de pessoas que carregam consigo um es?gma que os impede de uma reinserção social no futuro. A Fernanda, mais uma vez solidária, generosa, a contribuir para esse desejo de uma possível transformação pessoal nos reclusos/as par?cipantes e transformação social no público assistente. A propósito da sua par?cipação neste filme, O Filho Pródigo-Filme concerto, a Fernanda disse à jornalista do Público, Mariana Correia Pinto, que aprendera muito com estes não-atores. E a Mariana comentou: “Sei que não o disse por dizer: a grandeza dela estaria também nessa capacidade de saber aprender sempre e com todos. Se todos o soubéssemos, o mundo seria certamente um lugar melhor.”

Na luta por um lugar melhor, a Fernanda abriu portas, apostou em textos que ninguém arriscava, promoveu e divulgou novas dramaturgias de escrita feminina, agitou consciências, incentivou a criação de redes de debate e reflexão e, através da criatividade e inteligência, contribuiu para um “fazer teatral” pautado em oportunidades iguais para as mulheres. Querida Fernanda: todos os que te eram queridos, que te amaram (são muitos e eu incluo- me nesse número) Tivemos a boa sorte de poder cruzar as nossas vidas com a tua. Esse é um privilégio de que não me esquecerei, nunca.

Obrigada!

SESSÃO DE HOMENAGEM A FERNANDA LAPA TRIBUTE SESSION TO FERNANDA LAPA

EXIBIÇÃO DO FILME MULHERES NO PALCO DE LUÍSA SEQUEIRA & LUÍSA PINTO NO CINEMA TRINDADE, DIA 8 DE OUTUBRO ÀS 21H30, COM PRESENÇA DE LUÍSA SEQUEIRA E LUÍSA PINTO EXHIBIT OF THE FILM WOMEN ON STAGE BY LUÍSA SEQUEIRA & LUÍSA PINTO AT CINEMA TRINDADE, ON OCTOBER 8TH AT 9.30PM, WITH PRESENCE OF LUÍSA SEQUEIRA AND LUÍSA PINTO

MULHERES NO PALCO| WOMEN ON STAGEMULHERES NO PALCO.   

Portugal | 46’44’’ | 2006
Realizador|Director: Luísa Sequeira
Autora|Author: Luísa Pinto
Elenco|Cast: Fernanda Lapa, Lia Gama, Maria José, Glória de Matos, Fernanda Montenegro, Lurdes Norberto
Produtor|Producer: RTP – Rádio e Televisão de Portugal

Sinopse

Este documentário acompanha a encenação da peça de teatro “A Mais Velha Profissão” da dramaturga norte-americana Paula Vogel, encenada por Fernanda Lapa para o Teatro Nacional D. Maria II. A peça juntou pela primeira vez no palco cinco grandes atrizes portuguesas: Lia Gama, Maria José, Glória de Matos, Fernanda Montenegro e Lurdes Norberto. Em 2005, Fernanda Lapa vence o Globo de Ouro para melhor espectáculo com “A Mais Velha Profissão”. Em Mulheres no Palco, ouvimos a opinião da encenadora e das atrizes sobre a vida, o teatro e o tema que as uniu em palco.

Biofilmografia

Fernanda Lapa nasceu em 1943, Lisboa. Inicia-se em teatro em 1962, no Teatro dos Alunos da Universitários de Lisboa. Após fundar a Casa da Comédia, estreia-se como atriz profissional na peça Deseja-se Mulher de Almada Negreiros, sob a direção de Fernando Amado. É com esta mesma peça que se estreia, dez anos mais tarde, como encenadora de teatro. Com licenciatura em Serviço Social pelo Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa, obtém em 1979 uma bolsa da Secretaria de Estado da Cultura e frequenta a Escola Superior de Encenação de Varsóvia, onde se especializa em Encenação. Atriz de rostos múltiplos, colaborar em várias óperas, em peças de teatro e teatro-dança, interpretando em peças de autores como Jean Cocteau, Copi, August Strindberg, Arthur Miller, entre muitos mais. Lecionou teatro em várias universidades e institutos do país. Em 1995 funda a Escola de Mulheres – Oficina de Teatro, cujo propósito era dar destaque a produções teatrais por e com mulheres. Na grande tela fica marcada pela sua atuação em Recompensa (1979) de Arthur Duarte, Solo de Violino (1992) de Monique Rutler, Rosa Negra (1992) de Margarida Gil. Em 2005 recebe o Globo de Ouro pela produção da peça A Mais Velha Profissão de Paula Vogel, e é distinguida, no mesmo ano, com a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura. Fernanda Lapa faleceu a 6 de Agosto de 2020, deixando um forte legado nas lutas pela cultura e pelos direitos das mulheres.