"CURARE"

 

Dias: 18 - 25 de Abril

 

Horário: 19h15

 

Local: Galeria Nuno Centeno - Rua da Alegria 598

Curare.

Etimologicamente, a palavra “curadoria” vem do latim “curare”, que significa literalmente “cuidar” e, ao mesmo tempo, curare é um potente veneno de ação paralisante... As mulheres sempre foram associadas ao papel de cuidadoras, mas em contextos privados, como cuidar dos filhos, dos pais ou de familiares doentes, ou seja, um trabalho não remunerado que sustenta a economia invisível. A presença das mulheres no espaço público é uma conquista recente, e longe de estar concluída. Por isso, tantas artistas assumem a curadoria como extensão da sua prática: um gesto de reivindicar um espaço que sempre lhes foi negado.

Enquanto curadora, interessa-me criar uma tessitura — convocar diferentes trabalhos para dialogarem entre si. Este gesto de montagem, historicamente associado ao feminino, sobretudo no cinema, serve de ponto de partida para este programa.

“De la femme”, é um ensaio visual de Caterina Cucinotta e Jesús López, que convoca a montadora russa Elizaveta Svilova (1900-1975) para estabelecer uma ligação entre moda e cinema, aproximando a profissão de costureira à de montadora. Ao fazê-lo, resgata também um tempo em que muitas mulheres desempenhavam um papel central na montagem cinematográfica. O segundo vídeo mantém uma forte relação com a moda e com a roupa que acumulamos. Estefânia Almeida apresenta a performance-manifesto “Não estou à venda”. Desde a organização das peças até à sua desconstrução performativa, esta ação reivindica liberdade e recusa identidades fixas.

Nesse fluxo surge o terceiro vídeo, “Intrusa[s]”, de Cristina Cavalcanti, inspirado na história de Kathrine Switzer, a primeira mulher a correr oficialmente a Maratona de Boston, que foi violentamente ameaçada pelo diretor da prova. Este trabalho reflete não apenas este episódio, mas todos aqueles em que mulheres foram acusadas de invadir espaços considerados exclusivamente masculinos — muitas vezes com os seus corpos também invadidos por mãos masculinas.

O quarto vídeo é da minha autoria, surge através da mão e do gesto, “Espectros eletromagnéticos #1”, é um vídeo que convoca imagens de várias artistas, mediadas pela luz de um ecrã. Estas mulheres atravessam um portal ao som de Maya Deren (1917-1961). E numa homenagem implícita no título “Ashes of the Afternoon (134 mortes)”, as artistas Marcia Bellotti e Luiza Porto também convocam a cineasta experimental para abordar de forma surrealista, o gesto e a violência presente no quotidiano das pessoas transexuais no Brasil.

“Quebrando o Cobrão”, de Maria Inês Gomes apresenta uma Maria que quase parece a figura da “morte” de Maya Deren, numa tentativa de desfazer um antigo quebranto. Ficção e crença entrelaçam-se num percurso pelos “cantos” ancestrais da serra, onde
tradição e intimidade se cruzam.

Por fim, num encontro entre ficção científica e realidade, Ana Vilela apresenta “Clitorian Space Travel”, uma homenagem ao Clitóris, um órgão historicamente negligenciado — cuja real extensão só foi descrita em 1998, a partir do trabalho da urologista Helen O’Conor.

Tal como um Ouroboros, este ciclo de vídeos em loop funciona como um eterno retorno, estabelecendo uma ligação contínua entre todas as obras — do primeiro ao último vídeo.

| PROGRAMA |

  • De la Femme de Caterina Cucinotta, Jesús Ramé Lopez | Portugal | 2021 | 5’
  • Não estou a venda de Estefânia R. de Almeida | Portugal | 2025 | 2’
  • Intrusa[s] de Cristina Cavalcanti | Brasil| 2024 | 1’
  • Espectros Eletromagnéticos #1 de Luísa Sequeira | Portugal | 2025 | 8’
  • Ashes of the Afternoon (134 mortes) de Márcia Bellotti | Brasil | 2015 | 9’
  • Quebrando o Cobrão de Maria Inês Gomes | Portugal | 2024 | 9’
  • Clitorian Space Travel de Ana Vilela da Costa | Portugal | 2025 | 5’

Luísa Sequeira:

Luísa Sequeira é artista, realizadora e investigadora, doutorada em Artes dos Media. O seu trabalho cruza colagem, arquivo e cinema expandido, explorando o digital e o analógico. Sua investigação centra-se na reconstrução de narrativas feministas, desafiando estruturas dominantes. Entre seus trabalhos, destacam-se “Almakina”, “Cine Constelação”, “Quem é Bárbara Virgínia?”, “All Women Are Maria” e “O Que Podem as Palavras”. Na TV, criou o programa “Fotograma”. Apresentou a sua obra no IFF Roterdão, Bienal de Kaunas e Oxford. Leciona na ESAP e coprograma a “Seleção Nacional” no Batalha, desenvolvendo “As Pioneiras do Cinema”.