"REPENSAR O TRABALHO (IN)VISÍVEL DO CUIDADO NOS ARQUIVOS DE CINEMA E NO PATRIMÓNIO CINEMATOGRÁFICO DAS MULHERES"

 

Dia: 20 de Abril

 

Horário: 17h30

 

Local: Casa Comum

Os esforços para repensar os arquivos de cinema permanecem incompletos e necessitam urgentemente de uma avaliação crítica, sobretudo no que diz respeito à forma como o trabalho das mulheres no cinema tem sido historicamente marginalizado. Os filmes realizados por mulheres — em particular por criadoras do Sul Global, da Europa de Leste e dos Balcãs — são frequentemente excluídos dos arquivos oficiais e dos processos de canonização, ficando o seu legado preservado através de esforços pessoais, e não institucionais. Tal reflete um padrão mais amplo em que o trabalho das mulheres é tratado como periférico e contingente, em vez de ser reconhecido como parte integrante de um património cultural e histórico comum.

A história do cinema tem privilegiado, durante muito tempo, formas de trabalho masculinas, ocidentais e de elite, negligenciando as contribuições das mulheres. Esta negligência não é “benigna”, mas estruturalmente prejudicial, pois contribui para o apagamento sistemático do reconhecimento do trabalho criativo e intelectual das mulheres. O problema é ainda mais acentuado no Sul Global e nos contextos da Europa de Leste e dos Balcãs, onde estruturas patriarcais, coloniais e eurocêntricas têm obscurecido e desvalorizado ainda mais o trabalho feminino. Os dois filmes selecionados para esta sessão — Fatma 1975 e Braille’s Alphabet — funcionam como estudos de caso destas práticas de exclusão. Ao mesmo tempo, os seus recentes processos de digitalização e restauro demonstram como o trabalho coletivo de arquivistas, cineastas, investigadoras/es e curadoras/es pode contribuir para dar visibilidade a obras e autoras/es anteriormente negligenciadas/os e marginalizadas/os. Este trabalho criativo continua, em grande medida, a ser realizado por mulheres, em contextos especializados como arquivos, festivais de cinema e academia, constituindo gestos de cuidado em relação a legados cinematográficos invisibilizados e esquecidos de diferentes partes do mundo.

Este trabalho lento, repetitivo e minucioso com e dentro dos arquivos e das coleções arquivísticas procura recuperar histórias de mulheres (“herstories”) apagadas da história do cinema, em grande parte devido à predominância de uma teoria centrada no autor, que tende a privilegiar criadores individuais, frequentemente homens. Em vez disso, como defende Jane Gaines, é necessário deslocar o foco para os processos de produção, a colaboração e o trabalho coletivo. Nesse sentido, Lauren Rabinowitz alerta para o risco de assumir uma perspetiva feminina única e homogénea, defendendo que a história feminista do cinema deve assentar em investigação arquivística, social e histórica. Consideramos que reescrever a história do cinema é um ato radical de trabalho, que evidencia a importância do cuidado enquanto dimensão central de uma abordagem feminista e ativista. Implica expandir o conceito de arquivo para incluir formas de trabalho frequentemente negligenciadas — em particular as das mulheres, das classes trabalhadoras e de cineastas não ocidentais — e reconhecer que o cinema feminista emerge em contextos diversos. Em última instância, o nosso livro e o nosso trabalho curatorial propõem uma redefinição dos modos e dos lugares onde o trabalho cinematográfico feminista é reconhecido, valorizado e preservado, de forma a contrariar a sua contínua marginalização.

| Sessão de Filmes |

A segunda parte da sessão especial conduzida por Ana Grgić, traz às nossas telas dois filmes dos anos 70, que constroem um retrato da sociedade daquela época, através de uma lente feminina!

Convidamos todas as pessoas a aparecerem nesta sessão do dia 20 de abril, pelas 18h30, na Casa Comum.

| PROGRAMA |

  • Fatma 1975 de Selma Baccar | Tunísia | 1975 | 60’ | doc
  • Braille’s Alphabet de Marija Marić | Roménia | 1972 | 8’| doc