Homenagem a Rita Azevedo Gomes

12 de abril | 21h15 | Batalha Centro de Cinema - Sala 1

Exibição do filme “Altar” (2003), seguida de conversa com a realizadora Rita Azevedo Gomes, moderada por Rita Benis.

Em continuidade com as homenagens anuais a mulheres-cineastas portuguesas a que o Porto Femme já nos habituou, este ano, destacamos Rita Azevedo Gomes, reconhecendo a sua notável contribuição para o cinema independente e a sua abordagem singular na sétima arte. Esta distinção sublinha a sua vasta carreira, marcada pela experimentação, pela riqueza estética e pela profunda reflexão sobre o cinema enquanto expressão artística.

 

ALTAR

Portugal |73’ | 2003
Realização | Directing: Rita Azevedo Gomes
Produção | Production: Rita Azevedo Gomes
Actores | Cast: René Gouzenne, Alice Lovelace, Thomas Toutain, Susana Moody


Sinopse:
René é um ator que vive há muito retirado do mundo após a morte da sua mulher, Hélène. Orgulhoso no seu isolamento, raramente vê alguém, no entanto, gosta de estar horas ao telefone com os amigos. Os seus fantasmas do passado longínquo perseguem-no. As inquietações profundas de um primeiro amor, permanecem indecifráveis como outrora. Como o conto de Hermann Hesse, “Juin”, de onde o filme partiu, este é um filme sobre os mistérios da memória, sobre a força da sua expressão através da palavra, da palavra dita. Força da palavra como imagem cinematográfica.

HOMENAGEM A RITA AZEVEDO GOMES

Eu gosto da beleza, o cinema segundo Rita Azevedo Gomes

Nunca percebemos muito bem de onde vem o primeiro fascínio que nos prende a determinado cinema, mas não é preciso muito compreender para nos sentirmos atingidos pela “lenta flecha da beleza” ao ver certos filmes. Reconhecemo-la pelo misto de aperto e acelerar do coração que nos anima. Fazemos voto de ali voltar. 

Desde meados dos anos 70 que Rita Azevedo Gomes tem explorado diversas áreas artísticas que vão do cinema, ao teatro, à ópera ou às artes gráficas. No cinema colaborou com nomes como Luís Noronha da Costa, Valeria Sarmiento, Manoel de Oliveira, João Bénard da Costa, Werner Schroeter, Pierre Léon, entre outros. Passadas mais de três décadas do seu primeiro filme —contando com cerca de 16 filmes realizados em diversos formatos, e sendo as suas obras reconhecidas nos mais prestigiados festivais internacionais (Torino, Locarno, Berlinale, Mar del Plata, IndieLisboa, Doclisboa, entre outros), o certo é que o cinema de Rita Azevedo Gomes continua a ser escandalosamente construído quase à margem de subsídios estatais, permanentemente desafiado pelas infindas limitações orçamentais características da autoprodução. Não se resignando e seguindo em frente, com a ajuda de amigos e família, Rita Azevedo Gomes, lá vai (milagrosamente, diríamos) continuando a filmar. 

“Gosto da beleza”, diz (em mais do que uma ocasião). Todos os seus filmes parecem afirmar este princípio. Filme após filme, o seu cinema, as suas fontes murmurantes, fala-nos de algo que vem de longe, do princípio de tudo: o assombro convulsivo da beleza e dos amantes. Como diria Charles Péguy: “Deus é como um rei que tivesse abdicado nas mãos de cada um dos seus súbditos / Simplesmente o poder supremo.” Terrível graça. É dessa loucura que me falam os filmes de Rita Azevedo Gomes. As suas personagens, por via do seu abandono àquilo que provoca o sentir, são absorvidas por aquilo que sentem: o terror de amar num sítio tão frágil como o mundo, a memória do toque de uma mão amada, a lembrança de um encontro, de uma ilusão, uma vingança. “A emoção nunca é falsa”, diz Alberto (José Mário Branco) em O Som da Terra a Tremer (1990). Mergulhamos nas imagens destes abandonos, suas cerimónias infinitas, de uma fidelidade essencial à beleza, percorrendo lógicas que não são feitas de causa-efeito, mas antes de coincidências, afinidades, visitações, acasos. Basta que um livro que se abra numa fortuita página para que lá dentro alguém descubra os sinais de que precisa. 

 

É essa lição que surge desde logo no seu primeiro filme, O Som da Terra a Tremer (1990), onde um livro, com um pássaro na capa, acompanha e une diversas personagens. Alberto (José Mário Branco) muda-se para um quarto de hotel para poder terminar um romance. À medida que a escrita avança, ficção e realidade vão sobrepondo-se numa vertigem sem retorno, ao ponto de Alberto tornar-se ele próprio uma personagem do seu universo literário. Em Frágil como o Mundo (2001), dois jovens que se amam parecem não encontrar solução neste mundo para aquilo que sentem. Aqui é a personagem feminina que conduz o movimento (não se trata de um Romeu e Julieta ou de um Amor de Perdição). Isto repetir-se-á em muitos outros filmes de Rita Azevedo Gomes, essa força condutora feminina. É também uma escolha deliberada da realizadora gravar este cinema assim, permitindo aos dois amantes a permanência de um sentimento que o mundo frágil e implacável lhes negou. As suas juras e promessas, as suas palavras, o seu sentimento, para sempre connosco ficarão. Assim como a imagem daquele denso bosque, em que ambos se refugiam. Os antigos chamavam de silvae/silva (floresta) à “substância lenhosa da língua”, isto é, a matéria da palavra. É assim, rodeados dessa matéria, que vivem as personagens dos filmes de Rita Azevedo Gomes. As repetições de versos, poemas, diálogos, monólogos que surgem pela fala das diferentes personagens, em diferentes momentos e filmes, remetem para esse prazer: a matéria da palavra. Isso e os bosques, florestas, trilhos, ramagens e musgos; mas também os pássaros, cavalos, lobos, água, e a bruma, as névoas, que se abrem e cerram, acompanhando a metamorfose da luz e das palavras. Camadas sucessivas de coisas e tempos que habitam umas sobre as outras. Memórias que se infiltram no presente, discreta e delicadamente. Como em Altar (2002), talvez o mais sensível e belo dos seus filmes. A memória de um gesto de uma mulher amada é narrada por um homem a um visitante, entrelaçando-se e fundindo-se com imagens, sons, pintura, literatura e peças musicais. Mais uma vez a palavra poética tudo atravessa, como um sussurro. E tudo ressoa ecos dessa devoção antiga. Seguir-se-ia A Conquista de Faro (2005), a sua primeira colaboração com Agustina Bessa-Luís, que escreveria o texto. Nesta curta, vemos uma mulher adormecer e acordar dentro de uma encenação, palco de uma história que será narrada num magnífico plano-sequência. Voltamos à sobreposição de espaços (palácio/restaurante) e de tempos. Rita Azevedo Gomes voltaria a filmar três anos depois, A 15ª Pedra (2007). Um documentário que regista uma conversa entre Manoel de Oliveira, o grande mestre do cinema português, e o célebre cinéfilo e diretor da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, que entraria em alguns dos filmes da realizadora, para além da sua estreita colaboração, ao longo de mais de trinta anos, primeiro no departamento de cinema da Gulbenkian e em seguida na Cinemateca Portuguesa. A conversa flui entre a literatura e o cinema,  as intersecções da palavra e da imagem, mas também música, pintura, teatro, vida.  Num permanente entrecruzar de referências e provocações, reflexo do mútuo reconhecimento, a convivência de longa data dos entrevistados tornam este filme um testemunho único de cinema . Pouco depois filmaria A Colecção Invisível (2009), um filme baseado num conto de Stefan Zweig. Nesta curta-metragem, acompanhamos a viagem de um jovem antiquário ao interior do país, sua tentativa de adquirir uma rara colecção de gravuras. Entre a cegueira do colecionador (João Bénard da Costa) e a cegueira do mundo moderno, regressamos a uma das pedras de toque do cinema de Azevedo Gomes: a constante tentativa de salvar do esquecimento aquilo que persiste. Poucos anos mais tarde estrearia o filme que finalmente lhe traria um maior reconhecimento internacional: A Vingança de uma Mulher (2012), inspirado num conto de Barbey d’Aurevilly. Com ele, Rita Azevedo Gomes regressa às suas personagens prediletas, aquelas que se entregam de forma absoluta ao seu sentir (neste caso, a obsessão e o sentimento de vingança de uma mulher). Um aspecto relevante deste filme é a transformação operada no ouvinte que escuta a mulher: “o filme investiga também a forma como essas palavras reverberam, afetam e se inscrevem na vida dos outros”, como bem referem Adrian Martin e Cristina Álvarez López. Convém não esquecer,  toda esta matéria (da palavra) que reverbera, chega-nos apenas e tão só pelos actores e pelas actrizes, pelos seus corpos e vozes, nela se desdobrando, em carne viva, ora sendo eles próprios, ora personagens absolutas. Palavras repetem-se e deslizam de boca em boca. Luís Miguel Cintra a repetir o texto em Correspondências (2016), a incessante metamorfose da sua voz, o que ela é capaz, é de uma beleza profunda. Correspondências (2016) é um filme que convoca a cumplicidade e a troca de cartas e poemas entre dois dos maiores poetas portugueses, Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena. Cruzando oceanos e ditaduras, somos envolvidos pelo fulgor desta amizade e da poesia. “A amizade é a única coisa que os deuses invejam aos homens”, como bem o disse Agustina. Disse-o no seu romance Fanny Owen, adaptado ao cinema por Manoel de Oliveira, num filme intitulado Francisca (1981), que seria um dos primeiros trabalhos em cinema de Rita Azevedo Gomes (como responsável figurinista/desenho de guarda roupa). Em 2018, Rita Azevedo Gomes regressaria à ficção, com A Portuguesa. Um  texto de Robert Musil “filtrado” pela mestria de Agustina Bessa-Luís. Segundo Rita Azevedo Gomes, Agustina ter-lhe-á entregue sete ou oito páginas de diálogos (possivelmente dos últimos escritos da escritora amarantina). Lord von Ketten parte para a guerra ausentando-se por onze longos anos. Enquanto isso, a sua mulher mantém-se fiel e espera-o, não de modo passivo, mas fiel talvez sobretudo a uma ideia de amor que ultrapassa o próprio objecto do amor. Rita Azevedo Gomes oferece-nos aqui mais um filme feito de múltiplas camadas, sobrepostas sem disfarce ou resolução, como as aparições da extraordinária Ingrid Caven. Um tempo suspenso, que cruza passado e presente, onde as metamorfoses maléficas e maravilhosas que ocorrem em plena representação combinam-se de forma natural com o carácter mais teatral do filme, produzindo quadros que surgem como verdadeiras iluminuras (belíssima fotografia de Acácio de Almeida, cúmplice de grande parte dos filmes de Rita Azevedo Gomes). Mais uma vez, é a delicadeza, ou a “sprezzatura” (como diria Cristina Campo), da personagem feminina que lidera e molda o filme, vencendo todas as espadas. Jean-Louis Schefer, co-realizador, com Rita Azevedo Gomes e Pierre Léon, da bela “dança a três” que é Danses macabres, squelettes et autres fantasies (2019),  escreveria que “o cinema acelera o real”, introduzindo-lhe rasgões, dúvidas – relâmpagos de beleza que talvez só a entrega de alguns dedicados seguidores, cinéfilos e videntes, poderiam calhar em sorte captar. Na deriva contemplativa e lúdica deste filme, os três ensaiam um jogo (sério) feito correspondências e rimas entre passados distantes e o tempo presente, expandindo desse modo o seu e o nosso real. Por fim, o último filme estreado por Rita Azevedo Gomes, Trio em Mi Bemol (2022) – inspirado numa peça de Éric Rohmer –, trata-se de uma comédia sentimental que nos dá conta de um encontro de dois ex-amantes. Um encontro jamais absolutamente terminado, jamais suficientemente retomado. Um homem e uma mulher que ainda se gostam e assim continuarão: regressando um ao outro, escutando a música que, tal como eles, vai retomando temas, variando tons, sem nunca acabar. A música, a arquitectura e a floresta envolvem-nos num inexplicável jogo de ecos, criando uma harmonia que é puro prazer. Para onde nos levará o seu próximo filme? Aguardamos, pacientemente por novas desse próximo passeio com a beleza.

Finalmente, é importante continuar a dar a ver os filmes Rita Azevedo Gomes. Muitos dos seus filmes são difíceis de aceder, uma boa parte deles continua vedada do público, que os continua por descobrir, apesar de todos os prémios e homenagens, todo o reconhecimento internacional alcançado. Esta dificuldade sucede, não porque não haja quem os deseje ver, mas porque, entre os seus filmes e o seu público, demasiadas vezes, ergue-se uma barreira –, uma espécie de vontade, por parte do mercado, em fazer do cinema algo à sua imagem (à imagem do comércio, do mainstream). Os filmes de Rita Azevedo Gomes precisam chegar a quem necessita deles, precisam ser “passados”, à boa maneira de Serge Daney. Carecem de lugares e oportunidades para que este seu abandono à beleza chegue a quem tem olhos e disponibilidade para o ver. Por um lado, isso passa por ajudarmos as futuras gerações a desenvolver um olhar mais crítico sobre o que veem, mais honesto e conforme aquilo que o ser humano é. E, para tal, o papel dos ciclos de cinema, das homenagens, como a que fazemos aqui hoje, o papel de um festival de cinema como o Porto Femme, são absolutamente fundamentais. Por outro, trata-se da barreira de que falei antes. O ónus da responsabilidade pela invisibilidade (ou não) de uma obra não deve assentar apenas no mérito da obra ou na evolução natural do mercado, sabemos como tudo isso pode ser uma falácia. Enquanto não houver maior equidade nos lugares de decisão do sector cultural este cinema continuará a ser marginalizado, independentemente do seu mérito. Também é preciso fazermos alguma coisa aí. O meu desejo é que possamos todos contribuir para que estes preciosos e delicados filmes, repletos de beleza e vida, sejam feitos e cheguem aos seus espectadores, pois outros há e haverá que amam e amarão as coisas que Rita Azevedo Gomes escolheu amar. Como aquela belíssima e enigmática frase de Sophia, em Altar (2002): “Imagens tão silenciosas que, ao contemplá-las, sinto que fechei os olhos”. Versos que surgem no filme e que é como se nos alertassem: não te esqueças de viver, de amar, da beleza. Os filmes da Rita é isso que parecem procurar: como que rasgar, com extrema delicadeza, o grande silêncio, abrindo-nos de novo os olhos. E que possamos, tocados pela beleza, sentir o nosso coração que bate, que bate, sem sabermos explicar porquê.

Rita Benis

 

Rita Benis trabalha em cinema desde 2002 na escrita de argumentos e realização. Colaborou, entre outros, com Teresa Villaverde, Margarida Gil, Jorge Cramez, Pedro Figueiredo Neto, Inês Oliveira, António-Pedro Vasconcelos, António Cunha Telles, Vincent Gallo e Catherine Breillat. Mestre em literatura comparada, tem lecionado disciplinas como Escrita de Argumento, Adaptação Literária e História do Cinema. Investigadora da FLUL, publicou livros e capítulos dos quais se destacam “Exploring Film and Christianity” (Routledge 2024) e “Escrita e Imagem” (Documenta 2020); ou o capítulo “Acts of Reading: The Demands on Screenplay Reading” (Palgrave 2023).